quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O DESENVOLVIMENTO NEUROLÓGICO E SUA INFLUÊNCIA NA APRENDIZAGEM

HEREDITARIEDADE
O desenvolvimento e crescimento do ser humano começam no momento da fecundação. É a partir desse momento que a hereditariedade começa a exercer sua influência, pois ela significa a transmissão das características da espécie e, em particular de certas características individuais doas pais aos filhos. Ela é transmitida pelos genes, que têm em seu interior um conjunto de instruções ou programações para o desenvolvimento do indivíduo. Estas dependerão de vários fatores, sendo o fator ambiental um deles.
AMBIENTE
É tido como a soma total de estímulos que atinge um organismo vivo, de modo a traduzir o código genético determinado no momento da concepção. Ele pode ser: (a) intracelular (de dentro da célula), (b) intercelular (existe entre as várias células orgânicas), (c) intra-uterino (antes do nascimento) e (d) pós-uterino (depois do nascimento). Vimos desta forma, que o fator ambiental está presente desde o momento da concepção.
Além da hereditariedade e ambiente, temos a maturação e a própria aprendizagem como indispensáveis ao desenvolvimento neurológico.
MATURAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO
É definida como o desenvolvimento das estruturas corporais neurofisiológicas, determinado pelas potencialidades inatas e independentemente de experiência prévia, que poderá tanto possibilitar quanto limitar o desenvolvimento do comportamento.
O indivíduo, ao nascer, não tem ainda condições de ter suas células nervosas em funcionamento e necessitará de dois processos para que isto ocorra: a mielinização das fibras nervosas e um meio ambiente que estimule adequadamente. Assim, desde que a maturação das ligações nervosas esteja realizada, a aprendizagem de uma função pode fazer-se facilmente. Como a motricidade e a inteligência desenvolvem-se por etapas sucessivas, é necessário que, em cada estágio, o indivíduo receba as estimulações e o tipo de ensino compatíveis com seu potencial cerebral. Temos então, a partir de um certo estágio de desenvolvimento, o aumento da importância do fator ambiental na expressão da maturação do sistema nervoso. A experiência e o aprendizado passarão a desempenhar um papel fundamental para a integração das regiões cerebrais e, além disso, promover alterações estruturais celulares.
Também nessa fase temos os chamados “períodos críticos”, em que o indivíduo deverá ser exposto a determinados fatores ambientais a fim de permitir o adequado desenvolvimento de suas habilidades perceptuais, motoras, cognitivas e sociais. A maioria dos comportamentos do ser humano é aprendida, ou seja, são produtos da aprendizagem, excetuando-se os reflexos que são automatismos inatos. Por isso, é de suma importância que tomemos a aprendizagem como objeto de nosso estudo.
PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA INTELIGÊNCIA
Segundo Piaget, a inteligência humana é sempre um conjunto da maturação, da experiência física e social, e de um princípio dinâmico dominante: a equilibração. A experiência dá origem a novas estruturas mentais que ampliam a gama de experiência potencial da criança, o que, por sua vez, origina novas estruturas mentais. De acordo com sua teoria, pode-se verificar a diferença entre dois processos, já citados, que são relacionados, mas muito diferentes conceitualmente: desenvolvimento e aprendizagem.
O desenvolvimento refere-se aos mecanismos gerais do ato de pensar: pertence à inteligência em seu mais amplo e completo sentido. Tudo quanto pode ser chamado característico da inteligência humana vem à tona, principalmente, através do processo de desenvolvimento, como que destacado do processo de aprendizado. Este se refere à aquisição de habilidades e fatos específicos. Apesar do grau de desenvolvimento suceder sempre na mesma ordem, ele não corresponde a idades absolutas. A idéia central de sua teoria é que a lógica de funcionamento mental da criança se desenvolve gradativamente e qualitativamente diferente da lógica adulta. Sua aceleração ou retardamento irá ocorrer de acordo com os diversos meios sociais e a experiência adquirida. Assim, é preciso a escola reconhecer que não se trata de algo que exclua do aluno a possibilidade de aprender e sim, algo que lhe conduza a um modo particular de aprendizagem.
NEUROPLASTICIDADE
A neuroplasticidade é uma propriedade inerente aos sistema nervoso com a capacidade de modificar o seu funcionamento e de se reorganizar através de alterações ambientais ou de lesão.
Hoje se sabe que todos os medicamentos que aumentam a excitabilidade cortical de forma geral favorecem o aparecimento de trocas neuroplásticas. Basicamente, os mesmos mecanismos são os responsáveis pelos fenômenos plásticos em áreas motoras e somáticas em funções relacionadas com linguagem e cognição, entre outros.
Os avanços científicos, com a aplicação das novas tecnologias, têm motivado o estudo dos fenômenos que mediam a restauração das funções nervosas após lesões cerebrais de diversas etiologias. Podem ser citados como mecanismos de recuperação:
a) O aumento da eficácia sináptica com a ativação ou desinibição de vias existentes e pouco ativas no momento;
b) O crescimento dendrítico dos neurônios sobreviventes com formação de novas sinapses;
c) O aumento da atividade de vias paralelas às lesionadas também por reforço da atividade sináptica e a desinibição de vias e circuitos redundantes.
No ser humano, tem se obtido evidências de ao menos quatro possíveis formas de plasticidade funcional:
- a adaptação de áreas homólogas (contralaterias, por emcanismos de desinibição);
- plasticidade de modalidade cruzadas (reativação de funções em uma área não primariamente destinada a processar uma modalidade particular);
- a expansão de mapas somatotóprios (reorganização funcional);
- ativação compensatória ( desinibição – reorganização funcional).
Todas as privações sofridas pelos indivíduos são responsáveis por lentidão e anomalias do desenvolvimento (aspecto qualitativo) e de crescimento (aspecto quantitativo). É nos primeiros anos que a mielinização se opera, as redes neurais crescem e se estruturam, os processos de informação visual, auditivos, tátil-cinestésica se organizam por níveis de atenção, seleção, discriminação, identificação, sequencialização e retenção, e os processos de comunicação verbal se produzem através de funções de formulações, planificações e controle de condutas psicomotoras e psicolinguísticas.
É óbvio que a intervenção precoce não pode realizar-se sem uma identificação precoce. Uma é dependente da outra, daí a importância da identificação, que permitirá evitar conseqüências de várias ordens. A identificação precoce não pode ser casual e assistemática; antes, e pelo contrário, ela deve ser científica e visa eliminar ou atenuar seqüelas que se repercutem no desenvolvimento neurológico da criança deficiente ou com algum distúrbio.
Em alguns casos, a identificação precoce é óbvia, porém, em outros, só a exclusão e análise rigorosa de sinais pode formular um diagnóstico. Aqui, a intervenção tem seu papel, pois a banalização ou a subvalorização de sinais de desenvolvimento pode adiar a redução dos efeitos ou determinar agravamentos. A identificação precoce grosseira é um perigo. Quanto mais estudos e investigações práticas se encorajarem, por meio de um apoio concreto em termos interdisciplinares, tanto mais facilmente se distinguem e se diferenciam sinais, podendo-se, a partir daí, determinar a natureza dos problemas e o seu correto encaminhamento.
Rubens Wajnsztejn (médico neurologista infantil, mestre em distúrbios da comunicação humana).