A palavra dislexia não é agradável de ser pronunciada nem escrita.
* por Rosemari Marquetti de Mello
Entender o seu significado é algo complexo e instigante. Em seu significado literal dislexia trata-se de um distúrbio de aprendizagem entre inúmeros outros. Costuma ser confundido com a palavra epilepsia que se trata de uma doença em que ocorrem convulsões repentinas com a perda momentânea da consciência. Talvez seja por esse motivo que a palavra dislexia costuma causar certo repúdio quando pronunciada entre o público leigo.
No entanto, mudar o nome de um distúrbio de leitura e escrita, que é estudado e pesquisado há mais de um século na Europa e nos Estados Unidos poderia descaracterizar totalmente a etimologia da palavra.
A neurociência cada vez mais se empenha em pesquisas para elucidar as disfunções cerebrais, ou seja, os caminhos das informações neuronais. Para cada indivíduo esses caminhos podem ser exclusivos e nem por isso inadequados. São apenas formas diferentes de codificar informações. A plasticidade cerebral está aí para comprovar que os caminhos podem chegar à perfeita normalidade, através de treinamentos adequados e específicos. É o caso da intervenção para treinar o cérebro do disléxico a minimizar as dificuldades de aprendizagem.
A palavra dislexia é vista como um fantasma terrível até ser descoberta e compreendida. Não importa o tempo que se leve para descobrir o significado do fantasma, o importante é saber que o fantasma não é tão assustador, basta aprender a respeitar seu funcionamento.
Todo ser humano, para se sentir integrante de um grupo, precisa dar algo de si para o grupo e sentir-se aceito. Sendo assim, para uma criança cuja obrigação única é estudar, se o processo de aprendizagem é inadequado e mal compreendido, ela poderá carregar sérios danos emocionais por toda sua vida.
Um disléxico adulto ou até mesmo uma criança, sabe que tem algo acontecendo em relação à sua aprendizagem. Conseqüentemente, em alguns casos, generaliza que é incapaz de aprender pelos moldes tradicionais da leitura e escrita. Cerca de 99% das pessoas que chegam para avaliação na ABD – Associação Brasileira de Dislexia, sentem-se “burras” ou foram chamadas de “burras”. Segundo pesquisas, a maioria delas tem o nível intelectual normal ou acima da média, isto é, todos são inteligentes e este é o primeiro fator de exclusão para diagnosticar a dislexia. Se não tiver o nível intelectual normal, não é disléxico.
É comum ver que a crítica, na vida dessas pessoas, é tão aceita que cega o indivíduo com relação às suas melhores habilidades, focando-o apenas no seu fracasso escolar.
No ambiente escolar, as crianças são consideradas distraídas, desatentas, imaturas, desajeitadas, às vezes hiperativas ou apáticas. No início da aprendizagem esses adjetivos são causa de reuniões com os pais, junto à coordenação da escola para solucionar o problema da criança, quando na realidade o que deveria ser discutido é como esta criança poderia aprender adequadamente. A ignorância por parte dos professores provoca preconceitos dentro da sala de aula, desmotivando ainda mais o aluno com dificuldades. Em casa, pode haver um clima de acusações e castigos, chegando até a agressão física por parte dos pais.
Quando na adolescência, os jovens, cansados com as dificuldades de aprendizagem, chegam na fase da busca da identidade. Se ele não tiver um bom acolhimento no ambiente familiar e escolar, fatalmente irá procurar a tribo que lhe aceitar. Neste caso é que vemos a evasão escolar, o caminho da marginalidade, a fuga para a gravidez na adolescência, drogas, depressão e até mesmo o suicídio.
Por outro lado, adultos que procuram ajuda para os filhos, no momento em que começam a entender o distúrbio, identificam-se com as dificuldades que também apresentavam quando criança, pois a dislexia é hereditária. Eles são avaliados e descobrem que há a possibilidade de ter uma qualidade de vida melhor. Neste caso, o melhor a fazer é procurar ajuda com um terapeuta para levantar a auto-estima. É muito importante ir em busca de seus desejos e principalmente se respeitar.